quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Uma Questão de Conhecimento




Algum dia de sua vida, nobre leitor, você já parou para observar a visão que nós brasileiros temos de nós mesmos? Sobretudo no tocante à nossa prática religiosa mais antiga, o cristianismo?
Se a resposta é não, vamos fazê-la então, à partir de agora.
Primeiramente, não, esse texto não vai colocar a culpa por certos, digamos, acontecimentos ou resultados do dia a dia, na maior religião do Brasil. Não é este o intuito, mas, você que lê este texto e é ateu, não desanime ou suspeite dele, apenas peço que o leia até o fim, se possível.
Não é irônico que um país que se declara, em sua imensa maioria, cristão, defende "valores familiares" , a moral, os bons costumes e clama pelo bem, baseado em uma busca pela "evangelização" para que o país, envolto em uma atmosfera cristã, e seja mais humano, é o mesmo país que mais mata gays no mundo, que usa a internet, ou mesmo as ruas, para destilar o preconceito contra os negros e pobres, com prisões lotadas de pessoas que, acima de qualquer outra coisa, temem ao deus judaico/cristão o qual, aliás, a imensa maioria sequer sabe o nome; um país que, apesar de imensamente cristão, vê-se mergulhado no capitalismo selvagem, separatista, classista que é claramente utilizado em favor das grandes companhias, enquanto suga até a última gota de sangue dos trabalhadores basais, de ricos muito ricos, pobres muito pobres e de uma mídia que controla os sentimentos da imensa maioria da população, que demanda ideias prontas e opiniões pré definidas, pois é incapaz de pensar por si própria.
Os anos e anos de descaso de nossos governos e governantes, o abandono da educação no país, o avanço da mídia manipulativa e a promulgação da pobreza país afora, contribuíram para um cenário no mínimo pitoresco, para não dizer coisa pior.




Com o longo passar dos 500 e poucos anos, desde o descobrimento da terra Brasilis, diversas culturas assentaram-se no imaginário popular desta nação. Mas uma em particular, o cristianismo católico europeu, permaneceu neste mesmo imaginário de maneira mais sólida devida a sua manutenção enquanto instituição mundial.
Mas, como era de se esperar, o mundo, sobretudo o mundo ocidental, mudou em relação ao domínio do catolicismo romano, que enfraqueceu aqui e ali, enquanto velhos rivais se reforçavam e novos surgiam. O problema do Brasil nunca foi o surgimento de igrejas evangélicas, ou o desgaste da igreja católica, em relação à crença em deus dos brasileiros. O problema do Brasil dentro desta relação foi justamente o abandono da educação em todos os sentidos. Se no Período Colonial a educação era baseada no próprio cristianismo, através dos Jesuítas, à partir do Período Imperial o ensino laico (ou algo parecido com isso) dava pequenos passos de tartaruga; já na chamada Primeira República, pela primeira vez alunos eram separados por classes, em sua maioria baseadas na idade dos estudantes; por volta dos anos 1930 surge, sob a batuta de Getúlio Vargas, o ensino profissionalizante, que pela primeira vez abre as portas para os filhos dos pobres que até então não possuíam qualquer acesso à educação; o período militar ficou marcado pela busca da eliminação do analfabetismo, mas também com interesses na educação profissionalizante; somente em 1988, dois anos após sua proposição, a constituição é promulgada e traz , em seu conteúdo, ponderações e objetivos definidos para a educação no país. Infelizmente, mesmo depois da constituição, a maioria das leis, emendas e propostas ficaram apenas no papel enquanto a corrupção se alimentava dos recursos destinados às educação.





As famílias ligadas à política nacional engordavam seus "porcos" em chiqueiros suíços, a bestialização da população brasileira rolava solta e, enquanto isso, os anos 1990 e 2000 passavam sorrateiramente. Aqui devemos lembrar que, como a igreja católica havia perdido o domínio pela educação a mais de três séculos, tendo essa obrigação sido transferida ao estado, a instituição religiosa agora tomava conta apenas dos princípios espirituais dos cidadãos. Desta maneira a aproximação da realidade, com a imaterialidade dos ensinamentos religiosos, ficou cada vez mais distante. E é precisamente neste ponto que podemos compreender os porquês de o brasileiro ser cristão, mas ser a favor da condenação à morte, por exemplo. Com o enfraquecimento do poder político do catolicismo, o abandono da educação pelo poder público, a bestialização da população em geral, a elitização de uma parte pequena desta mesma sociedade, o surgimento de fontes de informação em excesso com a internet, a explosão de igrejas evangélicas nas periferias do país, com grandes ídolos afiliando-se posteriormente a estas organizações, que prometiam o perdão incondicional de um deus amoroso e justo, e, por fim, mas não menos importante, uma mídia que fabrica "verdades", o brasileiro vive, hoje em dia, essa multiplicidade de opiniões totalmente opostas, mas que ele não vê assim.




Não é incomum, após assistirmos a um destes "talk shows" de jornalismo, com âncoras basicamente"stand-ups", ouvirmos alguém ao nosso lado dizer:

"Deus é bom demais, se um vagabundo desses faz uma coisa dessas com a minha filha, eu mato o filho da p....."

"Um bandido desses tem que ser estuprado na cadeia. Pena que deus não dá asas a cobra."

"Tem que fazer o mesmo que ele fez! E ainda pior, isso é um animal! Deus me livre!"

O apresentador do jornal se esforça grandemente, para passar a pior imagem possível da pessoa que cometeu o delito, o descerebrado do lado de cá da tela, apóia e dá exemplos de como o meliante pode ter a vida ceifada. Essa é a mesma pessoa que passa em frente a uma igreja católica e faz "o sinal da cruz", ou chega em casa e "ora" pelo bem de alguém, ou para alcançar algum objetivo. E é essa mesma pessoa que não consegue mensurar a disparidade das opiniões que dispara durante o dia, de como a violência dispensada com infratores da lei, é inversamente proporcional a ideia de piedade e amorosidade, depositada no deus em que ela acredita.
De uma maneira geral, somos um povo com déficits altos de educação e um grande desprezo pela história, sobretudo por nossa própria história. Não defendo qualquer religião que seja, mas se fossemos um povo mais educado, não importaria que religiões praticássemos, seríamos mais parcimoniosos, melhores eleitores, mais cientes de nossos DEVERES, menos preocupados com a orientação sexual alheia, mais ligados em práticas políticas e mais envolvidos com o crescimento intelectual do país; a violência seria menor, o índice de analfabetismo quase nulo, teríamos uma economia mais forte, seríamos exemplo a se seguir na América Latina e, quiçá, teríamos o respeito do resto do mundo. Mas, abandonando a utopia, a realidade se apresenta com preconceito, burrice, falta de educação, ideias agressivamente opostas embutidas no mesmo pensamento e em um mesmo indivíduo, desconhecimento político, histórico, religioso e etc;
Tudo não passa de uma questão de conhecimento e nada mais.

domingo, 18 de junho de 2017

Um Breve Texto Sobre Moralidade



Todo ateu já foi confrontado com a pergunta:
"Se não acredita em deus, de onde você tira sua moralidade?"
Isso porquê a maioria das pessoas, sobretudo os cristãos, imaginam, ou tendem a acreditar que toda a moralidade vem, e só é possível de existir, de seu deus. Mas este "evento" só ocorre por uma série de motivos que os crentes sequer sabem que existem.
Todos os seres humanos, independentemente de serem crentes, ateus ou agnosticos, estão fadados a cometerem um erro muito comum a todos nós:
A crença de que os costumes de nossa época sempre existiram, sempre foram via de regra a todos o seres humanos antes de nós e que o mundo, como o conhecemos, sempre foi o que se apresenta diante de nós. 
Baseados neste erro histórico, os crentes são levados a crer que nossos preceitos morais e éticos são instituições milenares e que provém de um só lugar: seu deus.
Contudo, ignoram que por trás destes conceitos, existe uma história, uma razão e decisões baseadas em fatos históricos, para que todo o contexto que pensamos e agimos tenham um motivo para existirem. Outra coisa que os cristãos ignoram é o fato de que a moralidade é atemporal, ou seja, carece dos costumes locais, da maneira como pensam as pessoas de determinado local e época da história. De fato a palavra moral vem do latim moris, que significa costume. Ora, mediante isso podemos dizer que o que classificamos como moral vai depender, inteira e totalmente, de nossa cultura. Como falamos aqui da crença dos cristãos em relação a moral, temos que usar exemplos de dentro de seus moldes para demonstrar como a moralidade depende do tempo. Para os judeus, raiz principal do cristianismo, as leis mosaicas (de Moisés) eram um norte de moralidade. O nome de um homem  (típico da sociedade patriarcal da época) não podia se perder, era um princípio de moralidade, para tanto o irmão de um homem falecido havia de casar com sua cunhada viúva, ter um filho com ela e, desta maneira, suscitar o nome de seu irmão falecido. Era imoral deixar seu nome se perder, o próprio Moisés era filho de seu primo. Em nossa sociedade é uma coisa inaceitável e portanto imoral. Outra coisa moral e comum, no estado patriarcal, era a multiplicidade de esposas, conforme o poder financeiro do homem pudesse alcançar. Também visto como imoral em nosso tempo. De fato, se o cristão lesse os livros de Levítico, Números e Deuteronômio, fontes das leis de Moisés, perceberia que há uma infinitude de preceitos considerados altamente morais por aquele povo, mas não por nós. Mas isto colocaria uma pulga gigantesca atrás de suas orelhas, no tocante ao fato de que, ao observar tais conceitos, pareceria que deus mudou ao longo do tempo, algo que lhes parece inaceitável. Inertes eles estão ao fato de somos nós que mudamos deus, conforme vamos evoluindo nosso pensamento.




Compreendida a noção de que a moralidade está presa ao período em que vivemos, devemos agora falar de como foi que adquirimos a moralidade de nosso tempo.
Todos os cristãos imaginam que o caráter de respeito, compaixão, cortesia e amor ao próximo são resultado dos ensinamentos de Jesus. O que podemos dizer? Ledo engano.
Por séculos à fio o culto católico, supra dominante no contexto ocidental, era em latim. Ninguém além dos eclesiásticos sabia o que estava escrito na bíblia, a religião era a política e desafiá-los era morte certa, Hipátia, Galileu e Newton que o digam. Homens como Napoleão, sedento de poder, glória e dominação, era abençoado pela igreja em sua campanha para conquistar o mundo. O catolicismo não reconhecia os negros e índios como seres humanos, a antropologia surgiu como uma ciência reconhecidamente preconceituosa, pois discutia, entre outras coisas, a possibilidade de que os escravos e os nativos das terras recém descobertas tivessem alma e, desta maneira, talvez pudessem ser evangelizados. A igreja reagia mal aos movimentos abolicionistas em meados dos anos 1800 e, com o consequente sucesso destes movimentos, viu-se obrigada a "acolher" os negros que agora possuíam alma. No Brasil o catolicismo chamava o movimento de abolição de "moda", pois acreditavam que ia passar, pois os desígnios de deus não mudam e a escravidão era um ordenamento divino. Por fim lembremos de Hitler que tinha acordos com a igreja católica romana alemã, no intuito de que o catolicismo fosse a única religião existente, e verdadeira, do mundo pós nazismo. Em todos os exemplos acima citados podemos ver que, para suas épocas e pensamentos, todos agiam na certeza de que seus preceitos eram morais:
Para Napoleão dominar o mundo, causando morte e destruição, era um propósito altamente moral com sua crença em deus.
Para os arcebispos e padres católicos mundo afora era imoral os escravos terem direitos e serem libertados de sua condição degradante.
Para Hitler era imoral os judeus existirem e serem ricos e era moral, além de ser o trabalho de deus, que eles fossem exterminados e o mundo se tornasse ariano.
E é precisamente aqui que os preceitos morais de nosso tempo nascem. Mesmo que queiramos acreditar que existe um deus que sempre os garantiu.





Poucos dias depois de 6 de Junho de 1944, ou o dia D, quando o exército aliado chegou às primeiras cidades alemãs, dominadas pelos nazistas, cenas de horror, degradação, humilhação e tudo o que de pior que a raça humana já havia produzido, pôde ser visto pelos olhos dos soldados aliados em terras alemãs. Todo tipo de agrura atormentava o povo judeu encarcerado nos campos de concentração e horrorizava quem pudesse lhes ver. Após o fim da guerra o mundo pensava em o como proteger-se a si próprio de outros Hitlers e Mussolinis. Foi então que no dia 10 de dezembro de 1948 foi assinada, por mais de 48 países com influência econômica, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. As igrejas católica, bem como a Protestante e a Anglicana (influente no Reino Unido) permaneceram inertes aos fatos históricos que se desprendiam. Ou seja, os conceitos morais, de respeito e cuidado, que hoje compõe nosso mundo, surgiram do horror e do caos da segunda guerra mundial. Das mentes de homens preocupados com homens, não de um deus bonzinho que cuida e trabalha pela felicidade de seus fiéis. A igreja, como que para não ficar para trás, aliás como lhe é típico, começou mundo afora com campanhas para arrebanhar seguidores, pois agora estavam preocupados com assuntos como o bem estar e inclusão social da mulher, ideias anti preconceito com os descendentes afro e o respeito à cultura. Em 1961 no Brasil surge a "campanha da fraternidade" , que começa a embutir na cabeça dos cristãos a ideia, hoje muito difundida, de que a moralidade e a bondade são atributos de deus.
Como vimos foram homens, preocupados com homens, que construíram o ideal de moralidade que possuímos hoje, e não a vontade dos cristãos de que isso seja obra de seu deus. Basta uma rápida pesquisa pela história, principalmente à partir dos anos 1930 para compreendermos isso.
Vimos também que o conceito de o que é moral ou imoral depende muito da época em que vivemos e da cultura a qual pertencemos. É preciso muito mais do que apenas acreditar para saber, de fato, porquê é que estamos onde estamos e como foi que chegamos aqui.
Portanto, da próxima vez que alguém lhe perguntar de onde vem sua moralidade, uma vez que você não acredita em deus, lembre:
Existem muitas coisas, além de uma história enorme, por trás da ideia de moralidade que existe em nossos tempos. Ou você pode fazer como o personagem fictício americano "The Atheist Pig®" e responder: "Minha moralidade vem do queijo, já estou tão cansado de responder a essa pergunta que agora apenas direi que minha moral vem 'do queijo'."

quarta-feira, 7 de junho de 2017

História, Ignorância e Um Futuro Incerto



Cruzadas. Cruzadas são o exemplo perfeito de o que uma ideia pode fazer na vida humana. Veja que usei a palavra "ideia" e não a palavra "religião" pois, com efeito, a religião é uma ideia. As cruzadas foram guerras travadas, em quase sua totalidade, pelo domínio político-religioso das terras de Israel. Católicos queriam Israel, muçulmanos queriam Israel e os judeus também queriam Israel. Os muçulmanos porquê foi onde Maomé foi elevado aos céus, onde hoje fica o "Domo da Rocha" na velha Jerusalém, considerado sagrado pelo Islã; os judeus porquê são, desde sua chegada guiados no êxodo por Yaveh, os donos "legais" da terra; os católicos porquê foi onde Jesus nasceu e morreu. Por fim durante os séculos XI e XII as cruzadas assolaram a "terra santa" e, em muitos casos, corpos semi dilacerados, o odor de sangue, fezes e urina tomava conta do ar, enquanto esses três "exércitos de deus(Alá, Jeová) se digladiavam por sua extensão. Homens convencidos, por suas convicções religiosas, que um pedaço de terra precisava ser devolvido ao criador do universo inteiro. Esses mesmos homens que  se decapitavam, esquartejavam e desfiguravam mutuamente para defender uma ideia que só existia em suas mentes assustadas e pueris. Cada um, segundo sua própria fé, certo de que executava a vontade de deus ao matar seus semelhantes. Sim, as cruzadas são o exemplo da força das ideias enquanto mecanismos que dominam o homem e vão, em alguns casos, muito além da capacidade de raciocinar sobre essas ideias antes de executá-las. Ora, quem eram os cruzados? Cristãos que refletiam o que era ter fé naqueles tempos. Alguns eram ricos e instruídos (entende-se instruído aqui por conhecimentos místicos e voltados à fé. Um menino de 10 anos hoje tem mais conhecimento que um homem de 30 daquela época), outros eram pobres procurando a glória de servir a deus, ou morrer de fome em um canto qualquer do império. Então o leitor perceba que atravessar um homem com uma espada afiada era, ao menos na mente daquelas pessoas, fazer a vontade de deus.




Depois de muito tempo, avanços científicos, o desligamento da religião da política, a contribuição grega no tocante à democracia, duas guerras mundiais, o genocídio dos campos nazistas e a criação dos direitos humanos muita coisa mudou mundo afora. O Islã caminhou silenciosamente nos países árabes e africanos arrebanhando novos fiéis, enquanto cepas radicais surgiram aqui e ali declarando guerra ao ocidente. Os judeus, em sua maioria, espalharam-se em países europeus e para outros lugares do mundo. O cristianismo alastrou-se como fogo pelas américas, assimilando as culturas e religiões locais, chegando a parecer ser religiões diferentes em diferentes países. No Brasil o cristianismo fez simbiose com práticas indígenas e africanas, em uma metamorfose tão profunda que os cristãos modernos brasileiros realmente creem que praticam a fé de Cristo 100% fidedigna. As decisões sobre a fé do povo, aqui falo dos católicos, ainda vem do Vaticano, mas suas aplicações são transmutadas na realidade do povo tupiniquim. Mas por volta de 1942 quando as igrejas neopentecostais começaram sua escalada como a fé verdadeira do cristianismo, um cabo de guerra começou a ser puxado por católicos e evangélicos para ver quem arrebanha e mantém mais fiéis. Mas o quê é que isso tem a ver com as cruzadas?




De 1942 para cá, embora o surgimento da internet tenha facilitado o acesso a informação, a educação, sobretudo nas periferias, sofreu uma queda vertiginosa, seja por inação do estado ou pelo desinteresse da própria população. Porém o avanço frenético das igrejas evangélicas gerou, nas camadas mais baixas da população brasileira, uma sensação de que, embora façamos o mal, cometamos crimes hediondos e pratiquemos todo tipo de ilicitude, deus é o único que pode julgar, interferir e ser o norte de ética popular. Uma população extremamente pobre, mal instruída e com a certeza de que apenas deus é juiz de suas ações é o gado perfeito para novas cruzadas. O fim dos anos 1990 viu, graças às garantias da democracia, os gays e lésbicas sentirem-se mais livres para serem nas ruas aquilo que são em sua natureza. De forma parecida, na última década ateus e agnósticos ganharam o terreno da internet, onde começaram a discutir a questão da fé, confrontando um estado com sentimento religioso de mais de 500 anos. Todo tipo de discussão pode ser vista nas redes sociais, uma vez que tanto ateus quanto religiosos frequentam suas páginas opostas para "trocar" farpas em bate-teclas (bate-boca) eternos e nervosos.
Agora o país vive um momento político conturbado, onde a corrupção é o assunto dominante nos periódicos e jornais televisivos. Neste contexto, qualquer "salvador" que surgir apontando um caminho de salvação para a política e a ética da nação, logo será visto como o enviado de deus para o povo. A preocupação é com que posição esse salvador terá para com grupos contrários à sua ideologia. Basta que ele diga que ateus são uma ameaça, que gays não herdarão os céus, pois está escrito na bíblia, que todo praticante de outras religiões tem de ser perseguidos; pronto, novos cavaleiros cruzados surgirão de todos os cantos da nação para fazer o trabalho de deus. Embebidos na certeza de o que seu deus quer, estes novos cavaleiros de Cristo podem, tanto quanto os do passado, praticar os mesmos atos da vingança divina. Ora, os cruzados não eram praticamente semi analfabetos? Qual é o perfil dos neo cristãos brasileiros? Basicamente o mesmo, semi analfabetos, certos de que apenas deus é seu juiz e, tanto quanto os antigos soldados, se houver alguém que os coordene, nenhum assassinato, mutilação ou perseguição é crime. Infelizmente o Brasil é, como a Alemanha no fim da primeira guerra, um barril de pólvora aguardando o estopim.
As semelhanças são muitas.
Qual será nosso futuro?

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ateus. Quem São? Onde Vivem? O Que Comem?



Sim, o título é para ser engraçadinho mesmo e não, não tem a menor graça a forma como os ateus e não crentes são vistos pela imensa maioria das pessoas. Infelizmente o ateísmo é historicamente ligado a falta de caráter, a inconfiabilidade, causa espanto e afasta mesmo as melhores amizades. Uma grande parcela da sociedade brasileira discrimina, desconsidera, ironiza e nutre suspeitas de todos aqueles que declaram-se ateus. Sem contar que, em diversos casos, o ateísmo é confundido, idiota e imbecilmente, com individualismo e o desrespeito ao próximo, ou seja, o ateu logo é declarado como alguém que preocupa-se apenas consigo mesmo e despreza os outros. O próprio filósofo Mário Sérgio Cortella, em entrevista para o "Roda Viva" foi questionado se o aumento do ateísmo no Brasil não se devia ao aumento do individualismo e da preocupação com o "eu". E sua resposta? Ele diz que "uma maior oferta de anonimato faz com que as pessoas tenham mais coragem em declararem-se ateus." E segue dizendo que: "Antigamente, nos interiores, era mais difícil. Em uma cidade menor onde todos conhecem todos, dizer-se ateu fará com que os vizinhos/amigos o abandonem e isolem." Nota-se que, em essência, a pergunta, feita ao filósofo, aponta ao senso comum de que o ateísmo é ruim por natureza. E a resposta de Mário Sérgio aponta no caminho de que, por mais que o sistema vigente não queira, mudanças acontecem e o ateísmo não tem nada a ver com individualismo.





Então... quem são os ateus? Aliás, o que é o ateísmo?
Respondendo à segunda pergunta o ateísmo é, apenas e tão somente, a negação da existência de todo e qualquer ser imaterial, seja ele um deus, um anjo, um unicórnio ou demônio. Só isso, não cremos que nenhum destes "seres" existam. E isso não deveria causar problema algum... bem... na verdade não é assim que as coisas caminham. São mais de dois mil anos de promulgação do cristianismo no lado ocidental de nosso planeta. Destes, em mais de mil anos, apenas a religião era a resposta para todas as perguntas. Tanto que podemos citar o exemplo dos muçulmanos que, em sua era dourada, iniciaram o que chamamos de medicina moderna, enquanto na Europa cristã encantamentos e exorcismos eram praticados e, em muitas vezes, com a morte dos pacientes. E é absolutamente claro que o ateísmo, em um mundo totalmente religioso, teve seu filme queimado por ser contrário às práticas cristãs. Essa crença de que o ateu é um ser desprezível, perdido e individualista viajou ao longo dos tempos até nossos dias e, desta maneira, podemos compreender a razão do espanto quando ouve-se "sou ateu" ou "não acredito em deus".






Cooperando com a história de "mutilação intelectual" do ateísmo, o surgimento das igrejas evangélicas no contexto brasileiro, acirrou ainda mais a débil relação dos crentes e não crentes, pois a ideia da ausência de crença em deus está ligada à ação do diabo. Evangélicos tem total horror aos ateus e, para nossa infelicidade, são os mais preconceituosos. Que ateu nunca ouviu "Que ateu que nada. Você é atoa!" "Não interessa que você não acredita, eu acredito e ponto!" "Você só é ateu até precisar de deus." "Vou orar para deus quebrar seu coração" 
Fica claro que respeito para com nossas opiniões simplesmente não existe. Talvez por isso o advento da internet trouxe um verdadeiro campo de batalha de ideologias. Cansados com o fato de serem obrigados a conviver com o cristianismo dominante e ser alvo de todo o tipo de chacota, os ateus "lançaram" páginas, sites e encheram as redes sociais com conteúdo ateu. Sentindo-se usurpados os cristãos contra-atacaram com os mecanismos que já conheciam, ironizaram, diminuíram, teologizaram, chamaram atenção aos seus números, às suas vertentes e ao domínio global. Os ateus também partiram para a ironia, despejando imagens ofensivas, posts desrespeitosos e a coisa, hoje em dia, não tem fim. Homens como Richard Dawkins e Bill Maher fizeram de suas vidas uma cruzada em busca da disseminação do ateísmo e em defesa de uma mentalidade mais respeitosa dos crentes para com os ateus. Mas o fato é que, de lado a lado, o respeito está longe de chegar, e isso é um problema de educação, não de fé ou da falta dela.
E respondendo a primeira pergunta os ateus são pessoas comuns, que sonham, que tem desejos, que querem ter uma família, ter a garantia de seus direitos políticos, a garantia de suas manifestações intelectuais e de sua liberdade de expressão, que buscam respeito no trabalho, na escola, em casa e em suas vidas. Sou eu, é você (ou não) que lê este texto, pode ser seu filho, seu vizinho, seu namorado ou namorada, seus colegas de trabalho, etc; 
No fim, todo este texto longo é apenas uma manifestação da busca pela igualdade de todos nós. Podemos ser aquilo que quisermos desde que sejamos respeitados e, nunca é demais lembrar, devolvamos este respeito de forma recíproca ou como diz o ditado:

"Seja católico, seja evangélico, seja umbandista, seja testemunha de Jeová, seja ateu... só não seja chato."




Vídeo do roda viva no YouTube:

https://youtu.be/ZJvna8yMdUY


Mário Sérgio Cortella não tem qualquer envolvimento com este blog/site, foi aqui apenas citado em caráter de exemplo.

Roda Viva© é um programa da Rede Cultura de televisão, tem todos os direitos reservados e aparece neste blog/site apenas em caráter de exemplo.

sábado, 15 de abril de 2017




Outro dia li uma matéria no site do Paulopes onde se desenrolava a história de uma moça que, ao pegar um táxi, acabou por ter uma leve discussão com o motorista pelo fato de ela ser atéia. No texto o motorista não se conformava pelo fato de ela não acreditar em nenhum deus. Tamanha foi a frustração que eles acabaram por mudar de assunto.
No meu trabalho algumas situações costumam se desenrolar de maneira parecida. Ano passado eu discutia com dois amigos acerca das incongruências presentes na bíblia. Os amigos, um não crente, o outro agnóstico, e eu falávamos e os olhares nos permeavam, as pessoas não sentiam-se bem e um colega chegou a dizer que "só conhecíamos as partes 'ruins' da bíblia" e por isso a julgávamos. No dia seguinte, como a discussão seguia interessante, eu contava para meus amigos a história do povo judeu, sua mitologia e os desencontros de suas estórias, sobretudo no Egito. Mais tarde conversávamos sobre a criação do cristianismo e, não mais se contendo, uma colega me "ameaçou" com deus dizendo "Olha que deus lhe castiga hein! O telhado pode cair sobre sua cabeça."
Por fim um amigo me confidenciou duas histórias. Na primeira uma colega de faculdade, de igreja neo pentecostal, disse a outro colega de sala deles que "oraria para que deus destruísse sua vida" , tal é o grau de discordância em que eles chegam em suas conversas. O curso que eles fazem? Direito. Alguém tem dúvida de que a moça está no lugar errado?
Na segunda história ele conversava com um médico que classificou a homossexualidade como doença. Sim, um médico formado, classificou o homossexualismo como uma desordem física.







Parece piada mas, ao que tudo indica, nosso país passa por estado de ignorância generalizada, onde o respeito pela maneira com que o outro pensa, se é diferente ou contrária, deve ser combatida até o extermínio. A indiferença de pessoas que, em teoria, deveriam ser amáveis e respeitosos, o que era o objetivo de Jesus, tem se transformado em um ódio velado, ou uma raiva totalmente declarada. Enquanto as "ameaças" estiverem no plano das palavras tudo bem, afinal o "mal" no qual os crentes acreditam está apenas, e tão somente, em suas cabeças. Agora a coisa pode ficar mais "estranha" se cada vez mais religiosos ascenderem à política em cargos cada vez mais altos. Leis contrárias a liberdade e laicidade do estado podem ser aprovadas, sancionadas e, inadvertidamente, trazerem cada vez mais dificuldade para ateus, não crentes e praticantes de religiões que não o cristianismo.
Não obstante, existe a ameaça, real e muito próxima, de o Brasil eleger Bolsonaro como presidente, cidadão este que não gosta de minorias, homossexuais, não cristãos e outros. Com um homem como ele na direção deste país é impossível dizer como ficaria a condição destas pessoas e grupos os quais ele não aprova. Seus "seguidores" , embebidos em sua utopia, teriam a desculpa, e a proteção do estado, para perseguir quem quer que seja? Existiria espaço para nós não crentes? Como ficaria a condição de laicidade do estado?








Com o "estímulo certo" não seria incomum passarmos a assistir cenas que, hoje em dia, os cristãos consideram horrendas:

Queimar ateus, decapitar umbandistas(que já são tratados com tanto preconceito), atirar homossexuais do alto de prédios.

Todas essas coisas são possíveis, além de totalmente congruentes, em um estado totalitário religioso. Os atos do Islã, tão criticados pelos cristãos, converteriam-se na "justiça divina". Impossível? Obviamente que não. Os cristãos desconhecem sua história, creem que o mundo, como o conhecemos hoje, é uma obra de perversidade e da carência de deus. Basta que um "Messias" (e não é trocadilho) surja e aponte o caminho. Além do que, e isso não se pode esquecer, eles podem até não conhecer a maneira como o mundo ocidental tornou-se cristão, mas todos eles esperam uma guerra no apocalipse. Então queimar e matar todos os "infiéis", seria apenas a perfeita execução do plano divino. Basta aparecer o líder correto.
Ora, para outra colega de trabalho um ateu é um satanista. Mesmo que eu tenha tentado explicar que satanista é uma coisa e ateu outra. No mundo dela, é tudo a mesmíssima coisa pois quem não crê no deus em que ela acredita é do diabo e merece o inferno, ponto final. Com a ordem certa minha colega de trabalho pode, de uma maneira muito natural, passar de uma simpática senhora para uma ferrenha julgadora de infiéis que, banhada de orgulho, participará diretamente na morte de centenas de pessoas acreditando, profunda e apaixonadamente, estar cumprindo a vontade de deus.
Conforme o Brasil segue no caminho da evangelização total, não demorará para que a medievalidade retorne ao dia a dia e, que crimes hediondos transformem-se em atos da justiça de deus.
Onde é que vamos parar?



Link do site Paulopes:

http://www.paulopes.com.br/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada.html