quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Uma Questão de Conhecimento




Algum dia de sua vida, nobre leitor, você já parou para observar a visão que nós brasileiros temos de nós mesmos? Sobretudo no tocante à nossa prática religiosa mais antiga, o cristianismo?
Se a resposta é não, vamos fazê-la então, à partir de agora.
Primeiramente, não, esse texto não vai colocar a culpa por certos, digamos, acontecimentos ou resultados do dia a dia, na maior religião do Brasil. Não é este o intuito, mas, você que lê este texto e é ateu, não desanime ou suspeite dele, apenas peço que o leia até o fim, se possível.
Não é irônico que um país que se declara, em sua imensa maioria, cristão, defende "valores familiares" , a moral, os bons costumes e clama pelo bem, baseado em uma busca pela "evangelização" para que o país, envolto em uma atmosfera cristã, e seja mais humano, é o mesmo país que mais mata gays no mundo, que usa a internet, ou mesmo as ruas, para destilar o preconceito contra os negros e pobres, com prisões lotadas de pessoas que, acima de qualquer outra coisa, temem ao deus judaico/cristão o qual, aliás, a imensa maioria sequer sabe o nome; um país que, apesar de imensamente cristão, vê-se mergulhado no capitalismo selvagem, separatista, classista que é claramente utilizado em favor das grandes companhias, enquanto suga até a última gota de sangue dos trabalhadores basais, de ricos muito ricos, pobres muito pobres e de uma mídia que controla os sentimentos da imensa maioria da população, que demanda ideias prontas e opiniões pré definidas, pois é incapaz de pensar por si própria.
Os anos e anos de descaso de nossos governos e governantes, o abandono da educação no país, o avanço da mídia manipulativa e a promulgação da pobreza país afora, contribuíram para um cenário no mínimo pitoresco, para não dizer coisa pior.




Com o longo passar dos 500 e poucos anos, desde o descobrimento da terra Brasilis, diversas culturas assentaram-se no imaginário popular desta nação. Mas uma em particular, o cristianismo católico europeu, permaneceu neste mesmo imaginário de maneira mais sólida devida a sua manutenção enquanto instituição mundial.
Mas, como era de se esperar, o mundo, sobretudo o mundo ocidental, mudou em relação ao domínio do catolicismo romano, que enfraqueceu aqui e ali, enquanto velhos rivais se reforçavam e novos surgiam. O problema do Brasil nunca foi o surgimento de igrejas evangélicas, ou o desgaste da igreja católica, em relação à crença em deus dos brasileiros. O problema do Brasil dentro desta relação foi justamente o abandono da educação em todos os sentidos. Se no Período Colonial a educação era baseada no próprio cristianismo, através dos Jesuítas, à partir do Período Imperial o ensino laico (ou algo parecido com isso) dava pequenos passos de tartaruga; já na chamada Primeira República, pela primeira vez alunos eram separados por classes, em sua maioria baseadas na idade dos estudantes; por volta dos anos 1930 surge, sob a batuta de Getúlio Vargas, o ensino profissionalizante, que pela primeira vez abre as portas para os filhos dos pobres que até então não possuíam qualquer acesso à educação; o período militar ficou marcado pela busca da eliminação do analfabetismo, mas também com interesses na educação profissionalizante; somente em 1988, dois anos após sua proposição, a constituição é promulgada e traz , em seu conteúdo, ponderações e objetivos definidos para a educação no país. Infelizmente, mesmo depois da constituição, a maioria das leis, emendas e propostas ficaram apenas no papel enquanto a corrupção se alimentava dos recursos destinados às educação.





As famílias ligadas à política nacional engordavam seus "porcos" em chiqueiros suíços, a bestialização da população brasileira rolava solta e, enquanto isso, os anos 1990 e 2000 passavam sorrateiramente. Aqui devemos lembrar que, como a igreja católica havia perdido o domínio pela educação a mais de três séculos, tendo essa obrigação sido transferida ao estado, a instituição religiosa agora tomava conta apenas dos princípios espirituais dos cidadãos. Desta maneira a aproximação da realidade, com a imaterialidade dos ensinamentos religiosos, ficou cada vez mais distante. E é precisamente neste ponto que podemos compreender os porquês de o brasileiro ser cristão, mas ser a favor da condenação à morte, por exemplo. Com o enfraquecimento do poder político do catolicismo, o abandono da educação pelo poder público, a bestialização da população em geral, a elitização de uma parte pequena desta mesma sociedade, o surgimento de fontes de informação em excesso com a internet, a explosão de igrejas evangélicas nas periferias do país, com grandes ídolos afiliando-se posteriormente a estas organizações, que prometiam o perdão incondicional de um deus amoroso e justo, e, por fim, mas não menos importante, uma mídia que fabrica "verdades", o brasileiro vive, hoje em dia, essa multiplicidade de opiniões totalmente opostas, mas que ele não vê assim.




Não é incomum, após assistirmos a um destes "talk shows" de jornalismo, com âncoras basicamente"stand-ups", ouvirmos alguém ao nosso lado dizer:

"Deus é bom demais, se um vagabundo desses faz uma coisa dessas com a minha filha, eu mato o filho da p....."

"Um bandido desses tem que ser estuprado na cadeia. Pena que deus não dá asas a cobra."

"Tem que fazer o mesmo que ele fez! E ainda pior, isso é um animal! Deus me livre!"

O apresentador do jornal se esforça grandemente, para passar a pior imagem possível da pessoa que cometeu o delito, o descerebrado do lado de cá da tela, apóia e dá exemplos de como o meliante pode ter a vida ceifada. Essa é a mesma pessoa que passa em frente a uma igreja católica e faz "o sinal da cruz", ou chega em casa e "ora" pelo bem de alguém, ou para alcançar algum objetivo. E é essa mesma pessoa que não consegue mensurar a disparidade das opiniões que dispara durante o dia, de como a violência dispensada com infratores da lei, é inversamente proporcional a ideia de piedade e amorosidade, depositada no deus em que ela acredita.
De uma maneira geral, somos um povo com déficits altos de educação e um grande desprezo pela história, sobretudo por nossa própria história. Não defendo qualquer religião que seja, mas se fossemos um povo mais educado, não importaria que religiões praticássemos, seríamos mais parcimoniosos, melhores eleitores, mais cientes de nossos DEVERES, menos preocupados com a orientação sexual alheia, mais ligados em práticas políticas e mais envolvidos com o crescimento intelectual do país; a violência seria menor, o índice de analfabetismo quase nulo, teríamos uma economia mais forte, seríamos exemplo a se seguir na América Latina e, quiçá, teríamos o respeito do resto do mundo. Mas, abandonando a utopia, a realidade se apresenta com preconceito, burrice, falta de educação, ideias agressivamente opostas embutidas no mesmo pensamento e em um mesmo indivíduo, desconhecimento político, histórico, religioso e etc;
Tudo não passa de uma questão de conhecimento e nada mais.

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