quarta-feira, 7 de junho de 2017

História, Ignorância e Um Futuro Incerto



Cruzadas. Cruzadas são o exemplo perfeito de o que uma ideia pode fazer na vida humana. Veja que usei a palavra "ideia" e não a palavra "religião" pois, com efeito, a religião é uma ideia. As cruzadas foram guerras travadas, em quase sua totalidade, pelo domínio político-religioso das terras de Israel. Católicos queriam Israel, muçulmanos queriam Israel e os judeus também queriam Israel. Os muçulmanos porquê foi onde Maomé foi elevado aos céus, onde hoje fica o "Domo da Rocha" na velha Jerusalém, considerado sagrado pelo Islã; os judeus porquê são, desde sua chegada guiados no êxodo por Yaveh, os donos "legais" da terra; os católicos porquê foi onde Jesus nasceu e morreu. Por fim durante os séculos XI e XII as cruzadas assolaram a "terra santa" e, em muitos casos, corpos semi dilacerados, o odor de sangue, fezes e urina tomava conta do ar, enquanto esses três "exércitos de deus(Alá, Jeová) se digladiavam por sua extensão. Homens convencidos, por suas convicções religiosas, que um pedaço de terra precisava ser devolvido ao criador do universo inteiro. Esses mesmos homens que  se decapitavam, esquartejavam e desfiguravam mutuamente para defender uma ideia que só existia em suas mentes assustadas e pueris. Cada um, segundo sua própria fé, certo de que executava a vontade de deus ao matar seus semelhantes. Sim, as cruzadas são o exemplo da força das ideias enquanto mecanismos que dominam o homem e vão, em alguns casos, muito além da capacidade de raciocinar sobre essas ideias antes de executá-las. Ora, quem eram os cruzados? Cristãos que refletiam o que era ter fé naqueles tempos. Alguns eram ricos e instruídos (entende-se instruído aqui por conhecimentos místicos e voltados à fé. Um menino de 10 anos hoje tem mais conhecimento que um homem de 30 daquela época), outros eram pobres procurando a glória de servir a deus, ou morrer de fome em um canto qualquer do império. Então o leitor perceba que atravessar um homem com uma espada afiada era, ao menos na mente daquelas pessoas, fazer a vontade de deus.




Depois de muito tempo, avanços científicos, o desligamento da religião da política, a contribuição grega no tocante à democracia, duas guerras mundiais, o genocídio dos campos nazistas e a criação dos direitos humanos muita coisa mudou mundo afora. O Islã caminhou silenciosamente nos países árabes e africanos arrebanhando novos fiéis, enquanto cepas radicais surgiram aqui e ali declarando guerra ao ocidente. Os judeus, em sua maioria, espalharam-se em países europeus e para outros lugares do mundo. O cristianismo alastrou-se como fogo pelas américas, assimilando as culturas e religiões locais, chegando a parecer ser religiões diferentes em diferentes países. No Brasil o cristianismo fez simbiose com práticas indígenas e africanas, em uma metamorfose tão profunda que os cristãos modernos brasileiros realmente creem que praticam a fé de Cristo 100% fidedigna. As decisões sobre a fé do povo, aqui falo dos católicos, ainda vem do Vaticano, mas suas aplicações são transmutadas na realidade do povo tupiniquim. Mas por volta de 1942 quando as igrejas neopentecostais começaram sua escalada como a fé verdadeira do cristianismo, um cabo de guerra começou a ser puxado por católicos e evangélicos para ver quem arrebanha e mantém mais fiéis. Mas o quê é que isso tem a ver com as cruzadas?




De 1942 para cá, embora o surgimento da internet tenha facilitado o acesso a informação, a educação, sobretudo nas periferias, sofreu uma queda vertiginosa, seja por inação do estado ou pelo desinteresse da própria população. Porém o avanço frenético das igrejas evangélicas gerou, nas camadas mais baixas da população brasileira, uma sensação de que, embora façamos o mal, cometamos crimes hediondos e pratiquemos todo tipo de ilicitude, deus é o único que pode julgar, interferir e ser o norte de ética popular. Uma população extremamente pobre, mal instruída e com a certeza de que apenas deus é juiz de suas ações é o gado perfeito para novas cruzadas. O fim dos anos 1990 viu, graças às garantias da democracia, os gays e lésbicas sentirem-se mais livres para serem nas ruas aquilo que são em sua natureza. De forma parecida, na última década ateus e agnósticos ganharam o terreno da internet, onde começaram a discutir a questão da fé, confrontando um estado com sentimento religioso de mais de 500 anos. Todo tipo de discussão pode ser vista nas redes sociais, uma vez que tanto ateus quanto religiosos frequentam suas páginas opostas para "trocar" farpas em bate-teclas (bate-boca) eternos e nervosos.
Agora o país vive um momento político conturbado, onde a corrupção é o assunto dominante nos periódicos e jornais televisivos. Neste contexto, qualquer "salvador" que surgir apontando um caminho de salvação para a política e a ética da nação, logo será visto como o enviado de deus para o povo. A preocupação é com que posição esse salvador terá para com grupos contrários à sua ideologia. Basta que ele diga que ateus são uma ameaça, que gays não herdarão os céus, pois está escrito na bíblia, que todo praticante de outras religiões tem de ser perseguidos; pronto, novos cavaleiros cruzados surgirão de todos os cantos da nação para fazer o trabalho de deus. Embebidos na certeza de o que seu deus quer, estes novos cavaleiros de Cristo podem, tanto quanto os do passado, praticar os mesmos atos da vingança divina. Ora, os cruzados não eram praticamente semi analfabetos? Qual é o perfil dos neo cristãos brasileiros? Basicamente o mesmo, semi analfabetos, certos de que apenas deus é seu juiz e, tanto quanto os antigos soldados, se houver alguém que os coordene, nenhum assassinato, mutilação ou perseguição é crime. Infelizmente o Brasil é, como a Alemanha no fim da primeira guerra, um barril de pólvora aguardando o estopim.
As semelhanças são muitas.
Qual será nosso futuro?

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