sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ateus. Quem São? Onde Vivem? O Que Comem?



Sim, o título é para ser engraçadinho mesmo e não, não tem a menor graça a forma como os ateus e não crentes são vistos pela imensa maioria das pessoas. Infelizmente o ateísmo é historicamente ligado a falta de caráter, a inconfiabilidade, causa espanto e afasta mesmo as melhores amizades. Uma grande parcela da sociedade brasileira discrimina, desconsidera, ironiza e nutre suspeitas de todos aqueles que declaram-se ateus. Sem contar que, em diversos casos, o ateísmo é confundido, idiota e imbecilmente, com individualismo e o desrespeito ao próximo, ou seja, o ateu logo é declarado como alguém que preocupa-se apenas consigo mesmo e despreza os outros. O próprio filósofo Mário Sérgio Cortella, em entrevista para o "Roda Viva" foi questionado se o aumento do ateísmo no Brasil não se devia ao aumento do individualismo e da preocupação com o "eu". E sua resposta? Ele diz que "uma maior oferta de anonimato faz com que as pessoas tenham mais coragem em declararem-se ateus." E segue dizendo que: "Antigamente, nos interiores, era mais difícil. Em uma cidade menor onde todos conhecem todos, dizer-se ateu fará com que os vizinhos/amigos o abandonem e isolem." Nota-se que, em essência, a pergunta, feita ao filósofo, aponta ao senso comum de que o ateísmo é ruim por natureza. E a resposta de Mário Sérgio aponta no caminho de que, por mais que o sistema vigente não queira, mudanças acontecem e o ateísmo não tem nada a ver com individualismo.





Então... quem são os ateus? Aliás, o que é o ateísmo?
Respondendo à segunda pergunta o ateísmo é, apenas e tão somente, a negação da existência de todo e qualquer ser imaterial, seja ele um deus, um anjo, um unicórnio ou demônio. Só isso, não cremos que nenhum destes "seres" existam. E isso não deveria causar problema algum... bem... na verdade não é assim que as coisas caminham. São mais de dois mil anos de promulgação do cristianismo no lado ocidental de nosso planeta. Destes, em mais de mil anos, apenas a religião era a resposta para todas as perguntas. Tanto que podemos citar o exemplo dos muçulmanos que, em sua era dourada, iniciaram o que chamamos de medicina moderna, enquanto na Europa cristã encantamentos e exorcismos eram praticados e, em muitas vezes, com a morte dos pacientes. E é absolutamente claro que o ateísmo, em um mundo totalmente religioso, teve seu filme queimado por ser contrário às práticas cristãs. Essa crença de que o ateu é um ser desprezível, perdido e individualista viajou ao longo dos tempos até nossos dias e, desta maneira, podemos compreender a razão do espanto quando ouve-se "sou ateu" ou "não acredito em deus".






Cooperando com a história de "mutilação intelectual" do ateísmo, o surgimento das igrejas evangélicas no contexto brasileiro, acirrou ainda mais a débil relação dos crentes e não crentes, pois a ideia da ausência de crença em deus está ligada à ação do diabo. Evangélicos tem total horror aos ateus e, para nossa infelicidade, são os mais preconceituosos. Que ateu nunca ouviu "Que ateu que nada. Você é atoa!" "Não interessa que você não acredita, eu acredito e ponto!" "Você só é ateu até precisar de deus." "Vou orar para deus quebrar seu coração" 
Fica claro que respeito para com nossas opiniões simplesmente não existe. Talvez por isso o advento da internet trouxe um verdadeiro campo de batalha de ideologias. Cansados com o fato de serem obrigados a conviver com o cristianismo dominante e ser alvo de todo o tipo de chacota, os ateus "lançaram" páginas, sites e encheram as redes sociais com conteúdo ateu. Sentindo-se usurpados os cristãos contra-atacaram com os mecanismos que já conheciam, ironizaram, diminuíram, teologizaram, chamaram atenção aos seus números, às suas vertentes e ao domínio global. Os ateus também partiram para a ironia, despejando imagens ofensivas, posts desrespeitosos e a coisa, hoje em dia, não tem fim. Homens como Richard Dawkins e Bill Maher fizeram de suas vidas uma cruzada em busca da disseminação do ateísmo e em defesa de uma mentalidade mais respeitosa dos crentes para com os ateus. Mas o fato é que, de lado a lado, o respeito está longe de chegar, e isso é um problema de educação, não de fé ou da falta dela.
E respondendo a primeira pergunta os ateus são pessoas comuns, que sonham, que tem desejos, que querem ter uma família, ter a garantia de seus direitos políticos, a garantia de suas manifestações intelectuais e de sua liberdade de expressão, que buscam respeito no trabalho, na escola, em casa e em suas vidas. Sou eu, é você (ou não) que lê este texto, pode ser seu filho, seu vizinho, seu namorado ou namorada, seus colegas de trabalho, etc; 
No fim, todo este texto longo é apenas uma manifestação da busca pela igualdade de todos nós. Podemos ser aquilo que quisermos desde que sejamos respeitados e, nunca é demais lembrar, devolvamos este respeito de forma recíproca ou como diz o ditado:

"Seja católico, seja evangélico, seja umbandista, seja testemunha de Jeová, seja ateu... só não seja chato."




Vídeo do roda viva no YouTube:

https://youtu.be/ZJvna8yMdUY


Mário Sérgio Cortella não tem qualquer envolvimento com este blog/site, foi aqui apenas citado em caráter de exemplo.

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