domingo, 18 de junho de 2017
Um Breve Texto Sobre Moralidade
Todo ateu já foi confrontado com a pergunta:
"Se não acredita em deus, de onde você tira sua moralidade?"
Isso porquê a maioria das pessoas, sobretudo os cristãos, imaginam, ou tendem a acreditar que toda a moralidade vem, e só é possível de existir, de seu deus. Mas este "evento" só ocorre por uma série de motivos que os crentes sequer sabem que existem.
Todos os seres humanos, independentemente de serem crentes, ateus ou agnosticos, estão fadados a cometerem um erro muito comum a todos nós:
A crença de que os costumes de nossa época sempre existiram, sempre foram via de regra a todos o seres humanos antes de nós e que o mundo, como o conhecemos, sempre foi o que se apresenta diante de nós.
Baseados neste erro histórico, os crentes são levados a crer que nossos preceitos morais e éticos são instituições milenares e que provém de um só lugar: seu deus.
Contudo, ignoram que por trás destes conceitos, existe uma história, uma razão e decisões baseadas em fatos históricos, para que todo o contexto que pensamos e agimos tenham um motivo para existirem. Outra coisa que os cristãos ignoram é o fato de que a moralidade é atemporal, ou seja, carece dos costumes locais, da maneira como pensam as pessoas de determinado local e época da história. De fato a palavra moral vem do latim moris, que significa costume. Ora, mediante isso podemos dizer que o que classificamos como moral vai depender, inteira e totalmente, de nossa cultura. Como falamos aqui da crença dos cristãos em relação a moral, temos que usar exemplos de dentro de seus moldes para demonstrar como a moralidade depende do tempo. Para os judeus, raiz principal do cristianismo, as leis mosaicas (de Moisés) eram um norte de moralidade. O nome de um homem (típico da sociedade patriarcal da época) não podia se perder, era um princípio de moralidade, para tanto o irmão de um homem falecido havia de casar com sua cunhada viúva, ter um filho com ela e, desta maneira, suscitar o nome de seu irmão falecido. Era imoral deixar seu nome se perder, o próprio Moisés era filho de seu primo. Em nossa sociedade é uma coisa inaceitável e portanto imoral. Outra coisa moral e comum, no estado patriarcal, era a multiplicidade de esposas, conforme o poder financeiro do homem pudesse alcançar. Também visto como imoral em nosso tempo. De fato, se o cristão lesse os livros de Levítico, Números e Deuteronômio, fontes das leis de Moisés, perceberia que há uma infinitude de preceitos considerados altamente morais por aquele povo, mas não por nós. Mas isto colocaria uma pulga gigantesca atrás de suas orelhas, no tocante ao fato de que, ao observar tais conceitos, pareceria que deus mudou ao longo do tempo, algo que lhes parece inaceitável. Inertes eles estão ao fato de somos nós que mudamos deus, conforme vamos evoluindo nosso pensamento.
Compreendida a noção de que a moralidade está presa ao período em que vivemos, devemos agora falar de como foi que adquirimos a moralidade de nosso tempo.
Todos os cristãos imaginam que o caráter de respeito, compaixão, cortesia e amor ao próximo são resultado dos ensinamentos de Jesus. O que podemos dizer? Ledo engano.
Por séculos à fio o culto católico, supra dominante no contexto ocidental, era em latim. Ninguém além dos eclesiásticos sabia o que estava escrito na bíblia, a religião era a política e desafiá-los era morte certa, Hipátia, Galileu e Newton que o digam. Homens como Napoleão, sedento de poder, glória e dominação, era abençoado pela igreja em sua campanha para conquistar o mundo. O catolicismo não reconhecia os negros e índios como seres humanos, a antropologia surgiu como uma ciência reconhecidamente preconceituosa, pois discutia, entre outras coisas, a possibilidade de que os escravos e os nativos das terras recém descobertas tivessem alma e, desta maneira, talvez pudessem ser evangelizados. A igreja reagia mal aos movimentos abolicionistas em meados dos anos 1800 e, com o consequente sucesso destes movimentos, viu-se obrigada a "acolher" os negros que agora possuíam alma. No Brasil o catolicismo chamava o movimento de abolição de "moda", pois acreditavam que ia passar, pois os desígnios de deus não mudam e a escravidão era um ordenamento divino. Por fim lembremos de Hitler que tinha acordos com a igreja católica romana alemã, no intuito de que o catolicismo fosse a única religião existente, e verdadeira, do mundo pós nazismo. Em todos os exemplos acima citados podemos ver que, para suas épocas e pensamentos, todos agiam na certeza de que seus preceitos eram morais:
Para Napoleão dominar o mundo, causando morte e destruição, era um propósito altamente moral com sua crença em deus.
Para os arcebispos e padres católicos mundo afora era imoral os escravos terem direitos e serem libertados de sua condição degradante.
Para Hitler era imoral os judeus existirem e serem ricos e era moral, além de ser o trabalho de deus, que eles fossem exterminados e o mundo se tornasse ariano.
E é precisamente aqui que os preceitos morais de nosso tempo nascem. Mesmo que queiramos acreditar que existe um deus que sempre os garantiu.
Poucos dias depois de 6 de Junho de 1944, ou o dia D, quando o exército aliado chegou às primeiras cidades alemãs, dominadas pelos nazistas, cenas de horror, degradação, humilhação e tudo o que de pior que a raça humana já havia produzido, pôde ser visto pelos olhos dos soldados aliados em terras alemãs. Todo tipo de agrura atormentava o povo judeu encarcerado nos campos de concentração e horrorizava quem pudesse lhes ver. Após o fim da guerra o mundo pensava em o como proteger-se a si próprio de outros Hitlers e Mussolinis. Foi então que no dia 10 de dezembro de 1948 foi assinada, por mais de 48 países com influência econômica, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. As igrejas católica, bem como a Protestante e a Anglicana (influente no Reino Unido) permaneceram inertes aos fatos históricos que se desprendiam. Ou seja, os conceitos morais, de respeito e cuidado, que hoje compõe nosso mundo, surgiram do horror e do caos da segunda guerra mundial. Das mentes de homens preocupados com homens, não de um deus bonzinho que cuida e trabalha pela felicidade de seus fiéis. A igreja, como que para não ficar para trás, aliás como lhe é típico, começou mundo afora com campanhas para arrebanhar seguidores, pois agora estavam preocupados com assuntos como o bem estar e inclusão social da mulher, ideias anti preconceito com os descendentes afro e o respeito à cultura. Em 1961 no Brasil surge a "campanha da fraternidade" , que começa a embutir na cabeça dos cristãos a ideia, hoje muito difundida, de que a moralidade e a bondade são atributos de deus.
Como vimos foram homens, preocupados com homens, que construíram o ideal de moralidade que possuímos hoje, e não a vontade dos cristãos de que isso seja obra de seu deus. Basta uma rápida pesquisa pela história, principalmente à partir dos anos 1930 para compreendermos isso.
Vimos também que o conceito de o que é moral ou imoral depende muito da época em que vivemos e da cultura a qual pertencemos. É preciso muito mais do que apenas acreditar para saber, de fato, porquê é que estamos onde estamos e como foi que chegamos aqui.
Portanto, da próxima vez que alguém lhe perguntar de onde vem sua moralidade, uma vez que você não acredita em deus, lembre:
Existem muitas coisas, além de uma história enorme, por trás da ideia de moralidade que existe em nossos tempos. Ou você pode fazer como o personagem fictício americano "The Atheist Pig®" e responder: "Minha moralidade vem do queijo, já estou tão cansado de responder a essa pergunta que agora apenas direi que minha moral vem 'do queijo'."
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Ótimo texto cara.
ResponderExcluirExcelente !
ResponderExcluirValeu o texto!
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